O desafio do design frente a crescente imaterialidade e fragmentação da vida
- Clícia Machado
- 22 de jul. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 31 de jul. de 2024
Por Clícia Machado
Na obra cinematográfica Dias Perfeitos (2023), o cineasta alemão Wim Wenders (1945), “cinematiza” a vida ordinária de um zelador de banheiros públicos em Tóquio. E o faz brilhantemente, por meio da revelação da imprevisibilidade de uma vida previsível, cuja narrativa é contada, essencialmente, por meio de objetos, atravessada e experienciada por um entrelaçar de vários aconteceres e por coisas: fitas cassete, câmera fotográfica analógica, fotografias e livros impressos, o hábito da jardinagem e contemplação da natureza.

Para além da discussão primeira sobre as brechas de pequenas belezas cotidianas (que não é o foco do meu interesse nesse ensaio), Dias Perfeitos me provocou sobre a atuação do design, complexificada (em muito) por uma vida, cada vez mais, transformada em/absorvida por imaterialidades. Fora da ficção, na atualidade, as não-coisas – aquilo que é inapreensível, conforme o filósofo Vilém Flusser – se contrapõem às coisas, provocando seu apagamento e desaparecimento. Veja a música, o livro, a fotografia, as paisagens, as relações, posto que virtuais, foram enormemente descorporificados e transmutados em informação. Mas, curiosa, simultânea e contraditoriamente, a sociedade parece convocar a presença de coisas a que, no sentido proposto por Hannah Arendt, se atribui a tarefa de “estabilizar a vida humana” (citada por Byung-Chul Han na obra Não-Coisas: reviravoltas do mundo da vida).

O exame sobre a questão da imaterialidade no campo do design, pode-se dizer, é obrigatório, levando-se em conta o contexto, de onipresença da tecnologia e, sobretudo, de expansão do uso da inteligência artificial generativa. De início, vale dizer que, sob esse viés, faz todo o sentido buscar esmiuçar a relação homem-máquina, desdobrada em hiperinformação, isto é, uma quantidade agigantada de informação disponível na internet. Isso porque já não é mais possível escapar da digitalização da vida, esta que descoisifica, ou seja, perde sua característica de coisa, de objeto, e desvincula-se do mundo entendido como realidade. E o desestabiliza, porque dada a transitoriedade e descontinuidade que lhes são características, a informação, instável, não se presta à história e memória e fragmenta a vida.

Logo, diante da velocidade e consequente opacidade de uma realidade pautada pela hiperinformação, uma questão fundamental se coloca: como pode o design, em seus vários campos de atuação, trabalhar a favor de uma narrativa que assegure continuidade, faculte a construção de memórias, seja capaz de criar contexto e sentido para desfragmentar o mundo e dar sustentação à vida? Uma mudança de abordagem – menos técnico-projetual e mais contextual – faz-se, por certo, uma ordem.
Referências e materiais consultados
FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. São Paulo: Cosac Naify, 2007. 224 p.
INGOLD, Tim. Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais. In: Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 18, n. 37, p. 25-44, jan./jun. 2012.
HAN, Byung-Chul. Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida / Byung-Chul Han; tradução de Rafael Rodrigues Garcia. Petrópolis: Vozes, 2022. 107 p.
Sobre a autora

Clícia Machado é professora de cursos de graduação e pós-graduação, de cursos livres e também consultora empresarial. Cursou Comunicação aos 20 e, aos 50, se formou em Design de Moda. Se especializou em Marketing Empresarial e Gestão e Marketing de Moda, fez mestrado em Estudos de Linguagens e um sem número de cursos livres. E agora se aventura no doutorado em Design. Arte e memória compõem suas paixões. Livros são sua companhia mais frequente. A escrita lhe acolheu como profissão e lazer. Tem sido seu avesso e direito. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9044375114503424
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